A prevalência do meio sobre o fim nas comunicações digitais

por Marko Petek

Em um artigo de 2009 eu já escrevera que, citando, “só faz sucesso na internet o que lida com a interação entre pessoas. Os maiores sucessos na rede são o email, msn, chat, enfim, ferramentas de comunicação. ” Do ponto de vista empresarial eu entendia que as ferramentas para comunicação digital seriam instrumentos que iriam aumentar a produtividade. Naquela época eu considerava um email algo muito mais objetivo do que uma ligação telefônica, porque evitava todo o processo de “hand-shaking”, as pessoas se cumprimentando, perguntando da família, enfim todo este lero-lero.

O que eu nunca imaginara é que o efeito, passados alguns anos, fosse justamente o oposto: hoje em dia as ferramentas explodiram em uso, principalmente por causa dos smartphones. As pessoas passam o dia inteiro se comunicando umas com as outras, mas usando ferramentas que são extremamente consumidoras de tempo! Ou teclar algo em um visor pequeno é mais rápido do que falar? E tempo é nosso único recurso limitado e não elástico! Não entendo porque uma pessoa leva vários minutos digitando quando uma chamada telefônica é muito mais ágil! E permite a réplica, tréplica, e outras “éplicas”.

Recentemente precisávamos discutir diversos aspectos de um projeto com um cliente. Em uma operação “moderna” isto envolveria a troca de dúzias de emails, para lá e para cá, com cópias para trocentas pessoas e com aquela tripa de emails anteriores emendada abaixo do corpo principal. Pois bem,  o cliente pegou o carro, veio aqui no escritório e resolvemos todas as dúvidas e mais algumas em 20 minutos!

Também recentemente eu estava em uma reunião com diversas pessoas. A reunião estava indo muito bem, mas lá pelas tantas eu falei uma frase e percebi que uma das pessoas ficou contrariada. Ela não falou, não expressou nada, mas foi fácil perceber aquele átimo de tempo em que a sua face se contorceu. Por estar presente, eu “senti” o fato de imediato e, ao longo da reunião, fui conduzindo o assunto de forma a mudar a percepção que esta pessoa tinha tido. Nada de forma aberta, apenas liminarmente. E a reunião terminou com todos os envolvidos satisfeitos e com seus objetivos atingidos.

Isto funciona muito também em reuniões em que vou vender. O “estar frente-a-frente” me dá muito mais recursos para argumentar do que uma mensagem eletrônica. Por isto faço questão de marcar reuniões, mesmo que aparentemente tomem tempo, o aproveitamento final é sempre muito maior. Este é apenas um exemplo entre tantos. Claro que a comunicação digital é mais barata. Mas e o custo do tempo? Este recurso finito e não elástico de que falei antes. Quando cito estes exemplos, na realidade meu objetivo é outro. Não é invalidar os meios de comunicação digitais, que todos nós usamos. O que desejo é levantar a discussão de que estes meios de comunicação se tornaram os fins.

As pessoas passam tantas horas por dia grudadas neles porque tem esta angústia de se comunicarem. Gente precisa de gente. É da nossa natureza humana. Então, o negócio, a reunião, a venda é simplesmente uma desculpa para gerar oportunidades de comunicação. E quanto mais melhor. Pois somos animais sociais, que odeiam a solidão. O problema como sempre é o exagero, por isto que digo que hoje minha percepção é esta: o tempo gasto em comunicação está sendo muito maior do que costumava ser e a produtividade não está aumentando como seria esperado.

Se isto é bom ou ruim? Particularmente acho que tudo que mostra que somos humanos é bom. Como dizem dezenas de ditados, o que prejudica é o exagero.